O que aconteceu entre eu e o DJ depois que a pista esvaziou
Fui só pra dançar com as amigas. Acabei sendo a única que ficou pro último set, sozinha com o DJ, enquanto as luzes da pista iam apagando uma a uma.
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Fui só pra dançar com as amigas. Acabei sendo a única que ficou pro último set, sozinha com o DJ, enquanto as luzes da pista iam apagando uma a uma.
A gente falava nisso há meses, sempre como piada, sempre 'um dia a gente faz isso'. Numa quarta sem planos, ela apareceu com um jaleco branco e a expressão mais séria que eu já vi no rosto dela.
Eu sei exatamente o que eu quis quando mandei aquele áudio. Sem desculpa, sem contexto, só 'você quer vir?'. O que veio depois foi a noite mais honesta que eu tive comigo mesma em muito tempo.
Dois anos sem se falar, um número que eu achei que tinha deletado e uma mensagem enviada às 23h de uma terça-feira qualquer. Ela respondeu. E aí a gente ficou até amanhecer conversando como se esses dois anos não tivessem existido.
Foi ideia dela — e eu não sei se concordei porque confiava ou porque o pensamento me acendia mais do que eu esperava admitir. Ela saiu às onze. Só voltou com o dia clareando. E o que ela me contou foi melhor do que qualquer coisa que eu teria imaginado.
Eu estava de férias sozinha, sem planos além de acordar cedo e ouvir o mar. Ele apareceu no terceiro dia, sentou na cadeira ao lado da minha e perguntou se eu queria companhia. Nunca fui de dizer sim tão rápido.
Ele falou baixo, sem drama, enquanto eu ainda estava me arrumando. Uma frase só. Passei o jantar inteiro lembrando dela — cada escolha que eu queria fazer e não fazia, cada vez que ia abrir a boca e ele me olhava.
Todo mundo ia desligar, mas a gente ficou. Sem pauta, sem motivo de trabalho. Só a câmera ligada e aquele silêncio que a gente nunca tinha tido nos meses de home office. Foi aí que eu percebi que tínhamos muito mais o que conversar.
Oito meses de ligações mensais de trabalho, sempre profissional, sempre eficiente. Até o dia em que a chamada foi um pouco mais longa do que devia, ele perguntou como eu estava, e eu percebi que queria responder de verdade.
Eu já ia embora quando ela chegou com as amigas e ficou parada do meu lado no caixote de cerveja. A gente ficou fingindo que estava vendo a roda de samba e trocando de posição a cada música — até a última que tocou naquela noite.
Três anos de término, seis meses sem nenhuma mensagem e de repente ela estava ali, de moletom e xícara de café, três metros do meu apartamento. Nenhum dos dois disse nada por uns dez segundos muito longos.
A corrida devia durar vinte minutos até em casa. Mas o silêncio no carro foi enchendo de uma tensão que nenhum dos dois quis quebrar — só trocávamos olhares pelo retrovisor, e cada semáforo vermelho parecia durar mais que o normal.
Casado há oito anos, eu tinha certeza de que aquela parte de mim tinha ficado para trás na faculdade. Até o novo personal trainer da academia começar a corrigir minha postura com as mãos e eu perceber que não tinha ficado para trás coisa nenhuma.
Três da manhã, um posto de estrada vazio e outro caminhão estacionado a poucos metros do meu. Fomos os dois fingir que só queríamos um café, mas a conversa na mesa de plástico foi ficando mais devagar, mais próxima, até a madrugada resolver o resto.
Quinze anos de amizade, todas as viradas de ano juntas desde o colégio. Dessa vez, entre uma taça de espumante e a contagem regressiva, o beijo de boa sorte durou tempo demais para ser só isso.
Ela morava no apartamento ao lado quando éramos adolescentes, antes da família se mudar de cidade. Uma década depois, reapareceu na reunião de condomínio como se nenhum tempo tivesse passado — e a tensão que a gente nunca admitiu também não tinha ido embora.
Só nos conhecíamos de vista, colegas de curso dividindo quarto de hotel por acaso do sorteio da viagem de formatura. A primeira noite foi silêncio incômodo; a segunda, uma conversa que foi até tarde demais para as duas camas continuarem separadas.
Ela bateu na minha porta pedindo um favor simples. A chuva não parou por horas. Nenhum dos dois quis ir embora quando ela parou.
A gente sabia que estava brincando com fogo desde que a amizade começou. Na noite do aniversário dela, o fogo finalmente chegou.
Todo mundo foi embora cedo. A gente ficou mais uma rodada. Depois mais uma. Aí parou de ser sobre a cerveja.