O encanador que a síndica chamou era do meu colégio
Ele apareceu na porta com o uniforme da empresa e eu demorei uns três segundos para lembrar do nome. Quinze anos depois, o mesmo sorriso, o mesmo silêncio cheio de coisa.
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Ele apareceu na porta com o uniforme da empresa e eu demorei uns três segundos para lembrar do nome. Quinze anos depois, o mesmo sorriso, o mesmo silêncio cheio de coisa.
Doze andares de prédio e eu mal sabia o andar dela. Quando o elevador parou entre o terceiro e o quarto, tivemos quarenta minutos que nenhum dos dois esperava ter.
Seis meses no mesmo trajeto, ela de podcast, eu de livro. Até o dia que meu ônibus atrasou uma hora, e ela estava lá, esperando o próximo, sem o fone.
Era vizinha do andar de cima, apareceu com uma oferta de ajuda que eu não pedi e foi ficando. Quando os outros foram embora, ela ainda estava lá — mas já não era mais a mudança que nos prendia.
A placa apareceu numa quinta-feira. Sábado de manhã eu entrava sem saber que ele morava no condomínio ao lado. Um corte de cabelo, dois cafés e o número escrito no cartão de visita.
Primeira vez, liguei. Segunda, mandei mensagem. Na terceira, subi pessoalmente em vez de avisar — porque três meses evitando o corredor quando ela estava por perto já pareciam tempo demais fingindo que não queria essa conversa.
Raias opostas, mesmo condomínio, às seis da manhã, todo dia útil, por seis meses. Pela primeira vez, a raia dela estava ocupada quando eu cheguei. Ela fez sinal pra eu entrar na mesma.
Ela chegou com o caminhão e sem ninguém pra ajudar numa tarde de sábado. Ofereci vinte minutos por educação. Ficamos até meia-noite — e descobrimos que montávamos muito bem juntos.
Eu conhecia o cachorro dele antes de conhecer ele — um golden que cruzava comigo toda manhã quando eu estava chegando ou saindo. Numa quinta-feira feriado, nossos horários bateram. A conversa foi longa o suficiente pra eu voltar no dia seguinte de propósito.
Seis meses aprendendo a rotina de alguém pelo teto: que horas acorda, quando chega, se fica até tarde. Quando ele bateu na porta pra avisar sobre um vazamento, percebi que já o conhecia melhor do que imaginava.
Na infância, eram os dois que corriam descalços na rua da vila. Vinte anos depois, ela estava descarregando caixas na calçada quando ouviu o nome dela chamado da janela do prédio ao lado. Não esperava que o menino de antes tivesse ficado assim.
Um ano de 'bom dia' trocados na fila, sempre correndo, sempre no mesmo horário. Na manhã em que a padaria ficou vazia e o tempo parou de ser curto, descobrimos que sabíamos mais um do outro do que achávamos.
Três anos de término, seis meses sem nenhuma mensagem e de repente ela estava ali, de moletom e xícara de café, três metros do meu apartamento. Nenhum dos dois disse nada por uns dez segundos muito longos.
Ela bateu na minha porta pedindo um favor simples. A chuva não parou por horas. Nenhum dos dois quis ir embora quando ela parou.
Ela dava aula de segunda a sábado lá embaixo. Eu malh ava todo dia só para cruzar com ela no elevador. Até o dia em que o elevador travou.
A gente treinava no mesmo horário há meses, sempre trocando uma palavra ou outra entre as séries. Numa sexta-feira vazia, ajudar ela a ajustar a postura num exercício acabou em outra coisa completamente diferente.