Festa junina no interior — e o primo do vizinho que ninguém sabia que existia
Fui porque eu devia ir. Forró, bandeirinha, comida no papel — e um cara encostado no canto que eu nunca tinha visto e que ficou olhando pra mim a noite toda sem se mover.
72 contos com esta tag
Fui porque eu devia ir. Forró, bandeirinha, comida no papel — e um cara encostado no canto que eu nunca tinha visto e que ficou olhando pra mim a noite toda sem se mover.
Minha colega sublocou o quarto sem me avisar direito. O surfista chegou numa segunda-feira com uma mala pequena e ficou seis semanas. Demoramos duas para falar além do necessário.
O aplicativo de corrida sugeriu um parceiro de treino compatível. A foto era pequena, o perfil era vago. Quando ele apareceu na entrada do parque às sete em ponto, eu soube antes de ele abrir a boca.
Todo mundo de verde e amarelo, gritando na mesma direção. Ele estava numa mesa do canto com um copo de cerveja e o olhar em outro lugar. Eu encontrei esse outro lugar.
Minha esposa falava dela pelo nome há três meses antes de eu aparecer numa aula. Depois que eu apareci, parei de ouvir o nome — porque ficou difícil fingir que era só isso.
Ele tinha oito anos a menos e não se importava com isso, o que tornava tudo mais complicado. Ela parou de calcular diferença quando percebeu que estava pensando nele mais do que no número.
Ela não quis parecer inexperiente. Ele não quis parecer ansioso. Os dois entraram no quarto como se já soubessem o que estavam fazendo — e de algum jeito, funcionou.
Dezessete andares acima da cidade, dois colegas que nunca tinham ido além do bom dia. Ela com o copo na mão, ele do lado errado do rooftop — até a vista virar pretexto para chegar perto.
Todos sabiam quem ela era. Ninguém ia dizer nada. Ela chegou sozinha, conhecia metade da sala e eu era a outra metade. Quando a música baixou, foi ela que pediu a carona.
Cinco meses trabalhando do mesmo café, ela com fone, eu sem. Um episódio que toquei em voz alta por engano, a pausa dela, e a primeira vez que falamos de algo que não era o pedido do café.
A comunicação era perfeita: assertiva, rápida, direta. Quando finalmente se viram na única reunião presencial do ano, nenhum dos dois sabia o que fazer com tanta familiaridade num corpo estranho.
Desconhecidos eram mais fáceis — menos história, menos chance de coisa. Quando ela falou o nome, ele ficou quieto uns três segundos. Os dois aceitaram juntos, com as mesmas dúvidas.
O nome dela estava logo abaixo do meu na programação. Apresentamos em painéis diferentes, almoçamos na mesma mesa por acidente no segundo dia e nunca chegamos a jantar.
O briefing era claro: sensual, não explícito, luz natural. Quando a sessão acabou e ela foi ver as fotos na câmera, as duas ficaram olhando a mesma coisa — mas não eram as fotos.
Era a regra da amizade: ninguém ia sem a outra. Quando ela comprou ingresso pra uma noite sem contar, foi porque sabia o que ia acontecer se a outra viesse. Aconteceu do mesmo jeito — só que a surpresa foi outra.
O painel mostrava dezesseis senhas à frente. Ela chegou depois, pegou a senha logo atrás da minha, e disse que era melhor ter companhia quando o número demora. Tinha razão.
A revisão ia ser quarenta minutos, não uma hora. Quando o mecânico sumiu para buscar a peça, ficamos na salinha com duas cadeiras de plástico, uma TV com sinal ruim e todo o tempo do mundo.
A sala A1 era a melhor do andar: silenciosa, boa conexão, vista para o jardim. A gente nunca tinha trocado mais do que um 'com licença'. Numa terça com tudo ocupado, a recepcionista perguntou se a gente topava dividir por uma hora.
Seis meses disputando a mesma mesa no coworking sem trocar uma palavra — só olhares. Num dia de chuva que esvaziou o espaço, a mesa estava livre às oito. Mas ele já estava lá, com dois cafés na mão.
Raias opostas, mesmo condomínio, às seis da manhã, todo dia útil, por seis meses. Pela primeira vez, a raia dela estava ocupada quando eu cheguei. Ela fez sinal pra eu entrar na mesma.