Número 240, ela com o 241
A senha dele era 240, a dela era 241. Duas horas de espera num cartório sem Wi-Fi, uma única tomada. Dividiram o carregador, depois o silêncio, depois o número de telefone.
72 contos com esta tag
A senha dele era 240, a dela era 241. Duas horas de espera num cartório sem Wi-Fi, uma única tomada. Dividiram o carregador, depois o silêncio, depois o número de telefone.
Sempre havia sido um de cada vez, cada um escolhendo no seu ritmo. Naquele jantar, os dois olharam para a mesma pessoa ao mesmo tempo e perceberam isso pelo silêncio. A dúvida foi só quem falaria primeiro.
A barraca dele era boa para tempo bom. Na manhã do segundo dia, acordou encharcado. A dela era pequena, mas seca. O convite foi feito com um olhar — e a resposta foi mais rápida do que os dois esperavam.
Três horas de festival, o grupo foi se dispersando. Ela ficou para o segundo headliner. Ele também. Na terceira música, sem acordo, os dois estavam lado a lado no mesmo ponto do gramado, fingindo que era coincidência.
O protocolo era claro: às doze, um beijo. O problema era que faltavam vinte minutos, os dois estavam num canto da festa e o olhar já tinha dito tudo que a contagem regressiva só ia confirmar.
Quando o namoro de cinco anos terminou, ela não estava com saudade de sexo — estava com saudade da certeza. A primeira vez com alguém novo não foi intensa, foi estranha. E foi exatamente o que ela precisava.
Uma fila de café, um reconhecimento lento, um 'espera, você não era da turma de...?' que abriu duas horas de conversa. Quinze anos depois, os dois tinham vida, história e um jantar marcado pra semana seguinte.
Nunca tinha pedido isso para ninguém — 'fica aqui esse fim de semana.' A frase saiu antes de pensar. Ele ficou. E então ficou claro para os dois que não havia mais como fazer de conta que aquilo era normal.
Continuou indo às festas de família mesmo depois que terminaram, por hábito. A irmã dela sempre estava por ali — discreta, gentil, sem fazer comentários sobre o que tinha acontecido. Três anos depois, foi ela quem perguntou se ia tomar um café.
Ajustar postura faz parte do trabalho. Mas ao longo de seis meses, o toque foi ficando diferente — mais demorado, mais cuidadoso do que o estritamente necessário. A aluna foi a primeira a mencionar. A personal trainer foi a primeira a não negar.
A proposta era simples: sete dias, uma tarefa por dia enviada toda manhã, sem negociação prévia sobre qual seria. Ela concordou numa quinta-feira à noite. Na quinta-feira seguinte, percebia que tinha sido mais obediente do que imaginava que seria.
Ela nunca tinha saído da fantasia. Ele tinha experiência mas nenhuma pressa. A primeira noite com regras reais durou três horas, das quais duas foram de conversa — e mesmo assim foi a mais intensa que os dois tinham tido.
A empresa era distribuída, as reuniões sempre por câmera. Dois anos aprendendo o jeito um do outro por uma tela pequena. No dia em que a empresa abriu o escritório e ela entrou pela porta, ele reconheceu a voz antes do rosto.
Era pra ser mais uma reunião de home office com vinte pessoas. Quando o último alguém saiu, a câmera ficou ligada — e só nós dois percebemos.
Seis meses passando na sala dela sem que nada fosse dito. No último dia, com a caixa já na mão, ele bateu na porta e ela disse: eu sei.
Três anos no mesmo setor, perdendo as mesmas contas, escrevendo os mesmos pós-mortems. Num dia qualquer depois de mais uma derrota, ela fechou a porta da sala de reunião e não era para falar de estratégia.
Ela entrou liderando dezessete pessoas sem perguntar o nome de ninguém. Seis meses depois, numa tarde de segunda-feira, me chamou pelo nome na frente de todos — e depois quis falar em particular.
Ela pediu orientação de carreira, ele aceitou por educação. Cinco encontros depois, nenhum dos dois estava mais falando sobre carreira.
Doze andares de prédio e eu mal sabia o andar dela. Quando o elevador parou entre o terceiro e o quarto, tivemos quarenta minutos que nenhum dos dois esperava ter.
Era vizinha do andar de cima, apareceu com uma oferta de ajuda que eu não pedi e foi ficando. Quando os outros foram embora, ela ainda estava lá — mas já não era mais a mudança que nos prendia.