A fotógrafa que ela contratou para o ensaio não estava no script
O briefing era claro: sensual, não explícito, luz natural. Quando a sessão acabou e ela foi ver as fotos na câmera, as duas ficaram olhando a mesma coisa — mas não eram as fotos.
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O briefing era claro: sensual, não explícito, luz natural. Quando a sessão acabou e ela foi ver as fotos na câmera, as duas ficaram olhando a mesma coisa — mas não eram as fotos.
O painel mostrava dezesseis senhas à frente. Ela chegou depois, pegou a senha logo atrás da minha, e disse que era melhor ter companhia quando o número demora. Tinha razão.
A revisão ia ser quarenta minutos, não uma hora. Quando o mecânico sumiu para buscar a peça, ficamos na salinha com duas cadeiras de plástico, uma TV com sinal ruim e todo o tempo do mundo.
A sala A1 era a melhor do andar: silenciosa, boa conexão, vista para o jardim. A gente nunca tinha trocado mais do que um 'com licença'. Numa terça com tudo ocupado, a recepcionista perguntou se a gente topava dividir por uma hora.
Avaliações anuais duravam quarenta minutos. A dele durou quase duas horas — a gente parou de falar sobre indicadores antes do primeiro terço, e eu era a gestora responsável pelo processo.
Primeira vez, liguei. Segunda, mandei mensagem. Na terceira, subi pessoalmente em vez de avisar — porque três meses evitando o corredor quando ela estava por perto já pareciam tempo demais fingindo que não queria essa conversa.
A pista estava lotada quando ele chegou pelo lado de trás e perguntou com um gesto se eu topava. O tipo de dança que o funk pede não deixa muito espaço pra fingir que não tem algo acontecendo ali.
Eu não prestava atenção no palco. Até ela pegar o microfone, escolher uma música que todo mundo conhece e cantar do começo ao fim olhando especificamente na minha direção. Não tinha como fingir que era coincidência.
Eu era amigo do noivo. Ela era a irmã dele. A gente se conhecia de fotos de redes sociais havia anos. Quando ela chegou com um copo de espumante sobrando e disse 'toma, você vai precisar', soube que ia durar a noite toda.
Fui deixar uma chave, meu amigo não estava. O roommate abriu de camiseta, convidou a entrar pra esperar. Esperamos três horas. Em algum momento paramos de esperar meu amigo.
Meu irmão organizava churrasco todo mês, sempre os mesmos. Esse mês trouxe um amigo novo. Desde que chegou, ficou claro que o único assunto que eu queria discutir com ele não tinha nada a ver com futebol.
Ela tinha comprado o macacão numa loja de segunda mão. Tocou a campainha com a caixa de ferramentas na mão e a expressão de quem veio verificar um problema técnico. Eu abri a porta sem entender — e entendi imediatamente.
Passei uma tarde escolhendo músicas, fingindo que era pra ele. Mas cada faixa era sobre o que eu queria que acontecesse — e só percebi isso quando ele perguntou, ouvindo, se era isso que eu tinha imaginado.
Ele viajou uma semana pelo trabalho, a primeira desde que moravam juntos. Ela passou os primeiros dias organizando a casa — e do quarto dia em diante decidiu descobrir o que queria quando não precisava pensar em mais ninguém além dela.
A mesa de fora do evento de trabalho era pra quem precisava de ar. Os dois precisavam. Depois de dois copos de vinho e uma conversa honesta demais, o fato de os dois serem casados virou só mais uma das coisas que a gente decidiu não mencionar.
A ideia foi dela: eu tocaria a campainha, ela abriria de roupão como se fosse estranho. Simples. Só que ela levou o personagem mais a sério do que qualquer roteiro que eu tivesse imaginado.
Ela passou na frente dezenas de vezes. Naquele sábado de tarde, entrou. A atendente perguntou o que estava procurando — e ela se deu conta, pela primeira vez, de que nunca tinha pensado nisso pra si mesma.
Anos escrevendo o que queria que ele fizesse e deletando antes de enviar. Naquela quinta-feira, ela escreveu sem filtro, releu uma vez só — e mandou. Ficou olhando pro celular por uma hora, sem saber o que esperava.
Era uma viagem longa. Ela entrou na última parada, colocou a mochila embaixo e ficou olhando pela janela por duas horas. Depois da primeira pausa na estrada, ficou impossível voltar ao silêncio.
Chuva fechada, uma cobertura pequena e os dois únicos que esperavam aquele ônibus. Quarenta e cinco minutos de conversa que começou por obrigação e foi ficando tão boa que, quando o ônibus parou, nenhum dos dois se mexeu.