A vizinha do quinto só existia no grupo do condomínio — até o elevador parar
Doze andares de prédio e eu mal sabia o andar dela. Quando o elevador parou entre o terceiro e o quarto, tivemos quarenta minutos que nenhum dos dois esperava ter.
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Doze andares de prédio e eu mal sabia o andar dela. Quando o elevador parou entre o terceiro e o quarto, tivemos quarenta minutos que nenhum dos dois esperava ter.
Primeira vez, liguei. Segunda, mandei mensagem. Na terceira, subi pessoalmente em vez de avisar — porque três meses evitando o corredor quando ela estava por perto já pareciam tempo demais fingindo que não queria essa conversa.
Raias opostas, mesmo condomínio, às seis da manhã, todo dia útil, por seis meses. Pela primeira vez, a raia dela estava ocupada quando eu cheguei. Ela fez sinal pra eu entrar na mesma.
Seis meses aprendendo a rotina de alguém pelo teto: que horas acorda, quando chega, se fica até tarde. Quando ele bateu na porta pra avisar sobre um vazamento, percebi que já o conhecia melhor do que imaginava.
Ele bateu na minha porta às dez da manhã com cara de quem não tinha mais opção. Ofereci café, aquecimento e companhia. Ficamos até o anoitecer sem que nenhum de nós mencionasse que o aquecedor dele podia ter sido consertado horas antes.
Três anos de término, seis meses sem nenhuma mensagem e de repente ela estava ali, de moletom e xícara de café, três metros do meu apartamento. Nenhum dos dois disse nada por uns dez segundos muito longos.
Ela morava no apartamento ao lado quando éramos adolescentes, antes da família se mudar de cidade. Uma década depois, reapareceu na reunião de condomínio como se nenhum tempo tivesse passado — e a tensão que a gente nunca admitiu também não tinha ido embora.
Ela bateu na minha porta pedindo um favor simples. A chuva não parou por horas. Nenhum dos dois quis ir embora quando ela parou.
Ela dava aula de segunda a sábado lá embaixo. Eu malh ava todo dia só para cruzar com ela no elevador. Até o dia em que o elevador travou.
Começou com um 'bom dia' educado no elevador, todos os dias às sete da manhã. Meses depois, eu já cronometrava minha saída de casa só para garantir aqueles trinta segundos com ele.