Dez meses de clube do livro — ela detestava tudo que eu defendia, e eu comecei a gostar disso

Todo mês, a mesma discussão: ela odiava meus personagens favoritos, eu achava os dela previsíveis. Depois de dez encontros, percebi que eu escolhia os livros que ela ia odiar só pra garantir que tínhamos algo pra discutir por mais tempo.

Eu me chamo Lucas, tenho 30 anos e sou professor universitário de literatura. Ela se chama Isabel, também tem 30 anos e é advogada. Nos conhecemos numa festa de lançamento de um livro que eu tinha escrito sobre a relação entre literatura e sexualidade. Ela não perdeu tempo em me dizer que achava meu livro uma bobagem pretensiosa e que eu estava confundindo sexo com arte.

Eu achei graça, ela ficou irritada e a noite acabou num impasse. Mas algumas semanas depois, quando comecei a frequentar o clube do livro da biblioteca pública perto da minha casa, quem mais encontrei lá senão a Isabel? Ela ficou surpresa, eu fiquei divertido e assim começou nossa estranha amizade.

Todo mês, nos reuníamos com os outros membros do clube para discutir o livro escolhido. E todo mês, eu sentia uma tensão crescente entre mim e Isabel. Ela detestava tudo que eu defendia, achando meus personagens favoritos bobos ou ridículos, enquanto eu achava os dela previsíveis e chatos.

Eu não sei bem quando comecei a perceber que estava escolhendo livros só para provocá-la. Acho que foi no terceiro mês, quando sugeri "O Bom Filhinho" do D.H. Lawrence, sabendo muito bem que ela odiaria o personagem principal. E assim continuou, com "Lolita", " Histoire d'O", "As Vinhas da Ira". Todo mês, eu via sua expressão de desprezo enquanto ela discutia o livro comigo, e todo mês, eu sentia uma estranha excitação crescendo dentro de mim.

Ela era tão intensa em suas opiniões, tão apaixonada pela literatura que odiava tanto. Eu via como ela se debatia com os livros que eu escolhia, como eles a faziam sentir coisas que ela não queria sentir. E eu começava a gostar disso. Comecei a gostar de vê-la irritada, de provocá-la ainda mais, de ver seus olhos brilhando de raiva e frustração.

Até que chegou o décimo mês do clube do livro. Eu estava cansado da tensão constante entre nós, cansado de provocá-la só para ver seu rosto vermelho de raiva. E então, enquanto discutíamos "O Desventuras dos Camaradas", ela disse algo que me fez ver as coisas de outra forma.

"Você é tão cabeça-dura, Lucas", ela disse, balançando a cabeça. "Você não quer admitir que pode estar errado em nada. É por isso que você só escolhe livros que você já sabe que vai odiar."

Eu ri, mas ela continuou, sério agora. "É como se você tivesse medo de ser surpreendido por um livro. Medo de encontrar algo novo e diferente. Você prefere ficar na sua zona de conforto do que correr o risco de mudar sua opinião."

Eu fiquei em silêncio por alguns minutos, absorvendo as palavras dela. Eu nunca tinha pensado nisso dessa forma antes. Será que eu estava realmente com medo de ser surpreendido por um livro? Será que eu estava tão preso na minha zona de conforto que não estava disposto a mudar minha opinião sobre nada?

Isabel me olhou com uma expressão suave agora, como se tivesse percebido que tinha ido muito longe. "Eu não quis te magoar", ela disse baixinho. "Eu só queria fazer você ver as coisas de outra perspectiva."

Eu sorri para ela, agradecido por sua preocupação. "Eu sei", eu disse. "E eu não estou bravo com você. Na verdade, eu acho que você pode ter razão."

Ela pareceu surpresa com isso, mas feliz também. "Sério?"

"Sim", eu respondi. "Eu acho que talvez eu tenha ficado preso na minha própria cabeça por muito tempo. Eu nunca tinha realmente considerado que pudesse estar errado sobre alguma coisa antes."

Isabel riu disso, e eu percebi como ela era linda quando estava rindo. "Bem, isso é um começo", ela disse. "Agora, quem sabe? Talvez você até goste do próximo livro que escolhermos."

Eu sorri para ela de volta, sentindo uma nova excitação crescendo dentro de mim agora. Não era mais a tensão sexual que eu tinha sentido antes, mas algo diferente. Algo mais profundo e mais verdadeiro.

"Eu gostaria disso", eu disse finalmente. "Eu gostaria muito disso."

Eu ainda estava sorrindo quando Isabel começou a juntar suas coisas e colocá-las na bolsa. Ela tinha uma expressão pensativa no rosto agora, como se estivesse perdida em seus próprios pensamentos.

"Você vai embora tão cedo?" Eu perguntei, surpreso com sua pressa repentina.

Ela olhou para mim e deu de ombros. "Eu não sei", ela disse. "Eu só pensei que talvez fosse uma boa ideia darmos um passo atrás agora. Quer dizer, depois da nossa conversa... eu não quero que as coisas fiquem estranhas entre nós."

Eu entendi o que ela estava dizendo, mas não estava pronto para deixá-la ir tão cedo. Eu ainda tinha muitas coisas para pensar e discutir com ela.

"Espere", eu disse, estendendo a mão para tocá-la no braço. "Não precisa ir embora agora. Podemos pelo menos tomar um café juntos e conversar mais sobre isso."

Isabel hesitou por um momento antes de assentir relutantemente. "Tudo bem", ela disse. "Mas só porque eu não bebo café suficiente durante o dia."

Eu sorri para ela enquanto pegava minha jaqueta e saíamos do clube do livro juntos. Caminhamos em silêncio até a cafeteria mais próxima, cada um perdido em seus próprios pensamentos.

Quando chegamos à cafeteria, nós nos sentamos em uma mesa perto da janela e pedimos nossos cafés. Eu olhei para Isabel enquanto esperávamos nossa bebida chegar, admirando a forma como ela estava sentada ali, com os joelhos cruzados e as mãos apoiadas no colo.

"Então", eu comecei depois de um momento, "eu estava pensando sobre o que você disse lá no clube do livro."

Isabel olhou para mim com uma expressão curiosa. "E o que você decidiu?" ela perguntou.

Eu sorri para ela enquanto nosso café chegava à mesa. "Eu decidi que você tem razão", eu disse depois de tomar um gole do meu café.

"Eu estava realmente preso na minha zona de conforto", eu continuei, "e você me fez ver isso. Você me fez perceber que há muito mais para explorar e considerar no mundo do que eu jamais teria imaginado. Eu gostaria de agradecer por isso, Isabel." Ela sorriu para mim enquanto tomava um gole do seu café, parecendo surpreendentemente satisfeita com a minha admissão. "Bem, eu também aprendi algumas coisas com você", ela disse depois de um momento. "Eu nunca tinha considerado que poderia haver mais de uma forma de ver as coisas antes. E isso me fez perceber como sou rigidamente presa às minhas próprias opiniões." Eu ri disso enquanto colocava minha mão sobre a dela na mesa. "Então estamos quites, eu acho", eu disse. "Estamos aprendendo um com o outro." Isabel olhou para nossas mãos e depois de volta para mim, com uma expressão suave no rosto. "Eu acho que sim", ela disse finalmente. "E quem sabe? Talvez a gente até encontre algum ponto em comum da próxima vez." Eu sorri para ela enquanto nossa conversa continuou a fluir facilmente entre nós, como se tivéssemos encontrado algo novo e valioso no meio de nossas diferenças. Quando terminamos nossos cafés e saímos da cafeteria juntos, eu me senti mais próximo de Isabel do que nunca antes. E enquanto caminhávamos lado a lado pela calçada, eu não pude evitar sentir que tínhamos apenas começado a explorar o que estava acontecendo entre nós - uma conexão que ia além do clube do livro e das nossas opiniões divergentes.