Quando a chamada ficou aberta depois que todo mundo saiu da reunião

Todo mundo ia desligar, mas a gente ficou. Sem pauta, sem motivo de trabalho. Só a câmera ligada e aquele silêncio que a gente nunca tinha tido nos meses de home office. Foi aí que eu percebi que tínhamos muito mais o que conversar.

Quando a luz começou a diminuir lá fora, percebi que tinha sido mais um dia de trabalho interminável no meu escritório em casa. O home office não estava sendo fácil, mas eu já me acostumara com a rotina de acordar cedo, me arrumar para uma reunião virtual e passar o dia inteiro grudado na tela do computador.

A reúnião daquela tarde tinha sido longa e cansativa. Estávamos discutindo um projeto importante que envolvia vários departamentos, então era normal que demorasse um pouco mais do que o habitual. Mas quando finalmente chegamos ao fim da pauta, não tínhamos mais nada a fazer além de desligar as câmeras e ir embora.

Eu já estava prestes a fechar o meu notebook quando percebi que a câmera de uma das minhas colegas ainda estava ligada. O nome dela aparecia na tela com uma pequena luz verde ao lado, indicando que ela ainda estava online. Olhei em volta do meu quarto, que também servia como escritório, e percebi que estava sozinho. Todo mundo tinha desligado a câmera e ido embora.

Pensei em mandar uma mensagem para ela perguntando se tudo estava bem, mas algo me impediu de fazer isso. Ao invés disso, fiquei ali sentado, olhando para a tela do meu notebook, imaginando o que ela estaria fazendo do outro lado da ligação.

Logo percebi que a luz verde estava começando a piscar, indicando que ela havia aberto a câmera novamente. A imagem apareceu na tela do meu computador e eu pude ver que ela ainda estava sentada à sua mesa, com um leve sorriso no rosto. Ela olhou para a câmera e nossos olhares se encontraram através da tela.

Eu não sabia o que dizer ou fazer. Estava surpreso demais com a situação para conseguir reagir de alguma forma. Ela permaneceu ali, parada, sem dizer nada, apenas sorrindo para mim.

O silêncio começou a ficar cada vez mais estranho, então decidi tomar uma atitude e abrir a boca para dizer algo. Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela falou primeiro:

- Oi - disse ela com um sussurro suave.

Eu respondi com um simples "oi" também, ainda sem saber muito bem o que estava acontecendo ali. Ela continuou sorrindo para mim, e eu comecei a sentir uma sensação estranha no meu estômago. Era como se algo estivesse começando a despertar dentro de mim.

- Você ficou para conversarmos? - ela perguntou finalmente.

Eu não sabia muito bem o que responder. A verdade era que eu tinha ficado ali porque havia me esquecido de desligar a câmera, mas agora percebia que não queria sair dali tão cedo. Havia algo em sua voz suave e no jeito como ela estava sorrindo para mim que me fazia querer ficar mais um pouco.

- Acho que sim - respondi finalmente, com um leve sorriso no rosto também.

Ela começou a rir baixinho, como se estivesse aliviada com a minha resposta. E então veio o silêncio novamente, mas agora era diferente. Era como se estivéssemos nos descobrindo um ao outro através da tela do computador, como se estivesse acontecendo algo além das palavras que não podíamos expressar.

Começamos a conversar sobre coisas aleatórias, nada relacionado ao trabalho ou à reunião que tínhamos tido mais cedo. Falávamos sobre nossas vidas fora do escritório, sobre nossos hobbies e interesses, sobre coisas que gostávamos de fazer no nosso tempo livre. Ela me contou sobre sua paixão por pintura e eu lhe falei sobre meu gosto por música.

A cada palavra

- Eu também gosto de música - ela disse sorrindo. - Qual é seu gênero preferido? - Gosto de vários estilos - respondi -, mas acho que minha preferência fica entre o rock e o jazz. - Jazz? - ela perguntou, intrigada. - Não é muito comum encontrar pessoas que gostem desse estilo hoje em dia. - É verdade - concordei -. Mas tenho uma paixão especial por ele desde que meu pai me apresentou aos grandes mestres do jazz quando eu era criança. - Isso é legal - ela disse com um sorriso -. Minha mãe também adorava música e sempre ouvia Mozart e Beethoven em casa. Ela era professora de piano, sabe? - Uau, isso é incrível! - exclamei -. Eu nunca aprendi a tocar nenhum instrumento, mas sempre admirei quem tinha esse dom. - E você? - ela perguntou -. Tem algum hobby ou passatempo além da música? - Bem, eu gosto muito de fotografia - respondi -. Adoro sair para caminhadas e explorar novos lugares para capturar algumas boas fotos. - Que legal! - ela exclamou -. Eu também adoro fotografia. Tenho alguns equipamentos básicos em casa, mas ainda não sou muito boa nisso. - Ah, é só questão de prática - disse eu -. Se você gostar mesmo, tenho certeza que vai melhorar com o tempo. - Acho que você tem razão - ela concordou -. Talvez a gente possa sair para uma caminhada juntos um dia desses e você me ensina algumas técnicas. - Adoraria! - respondi sorrindo -. Podemos combinar depois da reunião de amanhã, se quiser. - Perfeito! - ela disse animadamente -. Mal posso esperar! Começamos a conversar sobre outros assuntos enquanto o tempo passava rapidamente. Era incrível como nós dois estávamos confortáveis um com o outro agora, mesmo sendo apenas uma chamada de vídeo. Nós rimos juntos, compartilhamos histórias e até mesmo alguns segredos que nunca tínhamos contado a ninguém antes. Estávamos tão envolvidos na conversa que nem percebemos quando a luz do lado de fora começou a escurecer. - Uau, já deve ser tarde - ela disse finalmente, olhando para o relógio -. Não percebi como o tempo passou tão rápido! - É verdade - concordei -. Mas foi muito gostoso conversar com você. Acho que nunca tinha falado tanto sobre mim mesmo com alguém antes. - Eu também achei muito legal - ela acrescentou -. Acho que a gente deveria fazer isso de novo em breve, o que acha? - Concordo completamente - disse eu -. E dessa vez, quem sabe a gente não se encontra pessoalmente para aquela caminhada fotográfica? - Adoraria! - ela respondeu animadamente -. Vou te mandar uma mensagem depois da reunião de amanhã e combinamos tudo direito, certo? - Perfeito! - respondi sorrindo -. Mal posso esperar! Com isso, nós nos despedimos e desligamos a chamada. Fiquei ali sentado por alguns segundos, ainda com um sorriso no rosto após aquela conversa tão gostosa. Era incrível como uma simples chamada de vídeo havia se tornado algo muito mais especial do que eu poderia ter imaginado. E enquanto me levantava para sair do escritório, percebi que não via a hora de vê-la novamente, seja lá em que contexto fosse.

Enquanto se dirigia para a porta, percebi que tinha deixado meu celular sobre a mesa. Voltei para pegá-lo e notei que a chamada ainda estava aberta. automaticamente, fui fechar a janela do aplicativo, mas algo me fez hesitar. Decidi dar uma rápida olhada nas mensagens que havíamos trocado durante a conversa, sorrindo ao rever algumas de nossas piadas e comentários.

De repente, ouvi um barulho vindo da chamada ainda aberta. Curioso, aproximei-me do celular e percebi que ela ainda estava ligada do outro lado. Fiquei surpreso com esse descuido nosso, mas também meio divertido pela situação. Resolvi então me sentar novamente e esperar para ver o que acontecia.

Passados alguns segundos, ouvi sua voz suave dizendo algo em tom baixo, como se estivesse falando sozinha. Não consegui entender direito o que ela estava dizendo, mas percebi que não havia desligado a chamada ainda. Sem saber ao certo o que fazer, resolvi esperar um pouco mais para ver se ela percebia o erro e desligava a ligação.

Mas então, ouvi novamente sua voz, agora um pouco mais alto e claro:

- Você ainda está aí? - perguntou ela, parecendo surpresa com a possibilidade de eu estar ouvindo tudo aquilo.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, sem saber como responder. Mas então, tomei coragem e resolvi brincar um pouco com a situação:

- Sim, ainda estou aqui - respondi calmamente -. Parece que a gente se esqueceu de desligar a chamada quando nos despedimos agora há pouco.

- Ai, meu Deus! - ela exclamou, parecendo bastante constrangida -. Eu não Believe isso! Fiquei falando sozinha como uma louca enquanto você ouvia tudo! Sinto muito!

- Não precisa se desculpar - disse eu, rindo da situação -. Foi divertido ouvir você conversando consigo mesma. E além disso, agora eu também conheço alguns dos seus segredos mais profundos e íntimos.

- Não diga isso assim, parecendo tão sério! - ela riu também -. Agora vai achar que sou uma pessoa louca e estranha!

- Na verdade, acho você muito interessante - respondi sinceramente -. E além disso, agora tenho uma desculpa perfeita para falarmos de novo amanhã cedo e combinarmos nosso encontro depois da reunião.

- Ah, é mesmo! - ela concordou -. Que bom que você viu o lado positivo dessa situação embaraçosa!

- Sempre procuro ver o lado bom das coisas - disse eu -. E sabe de uma coisa? Acho que essa chamada aberta acabou se tornando algo muito mais especial do que poderíamos ter imaginado.

- Concordo completamente - ela respondeu com carinho -. E obrigada por não fazer disso um grande problema. Agora, vamos combinar logo essa caminhada fotográfica para podermos ver um ao outro novamente em breve!

- Combinado! - respondi sorrindo -. Mal posso esperar para nosso próximo encontro, quer seja virtual ou pessoalmente.

Com isso, desligamos a chamada de vez e saímos do escritório com sorrisos no rosto e corações cheios de expectativa pelo que ainda estava por vir.