A mesa da janela era sempre minha — exceto nas manhãs em que era dele
Seis meses disputando a mesma mesa no coworking sem trocar uma palavra — só olhares. Num dia de chuva que esvaziou o espaço, a mesa estava livre às oito. Mas ele já estava lá, com dois cafés na mão.
Eu chegava sempre às oito em ponto no coworking. Gostava de ver o lugar ainda vazio, só algumas luzes acesas aqui e ali, a recepcionista bocejando atrás do balcão. Era meu momento de silêncio antes da tempestade do trabalho começar. Mas havia uma exceção: a mesa perto da janela sempre estava ocupada por ele. Acho que chegava mais cedo ainda para pegá-la.
Nós não nos falávamos. Nem mesmo um aceno de cabeça ou um sorriso. Só nossos olhos se encontravam de um lado a outro da sala, e logo desviávamos o olhar. Era como se tivéssemos uma regra não escrita de evitar qualquer contato além daquele breve olhar. Mas eu não conseguia deixar de notar seus cabelos castanhos bagunçados, sua barba por fazer, o jeito que ele mordia o lábio inferior quando estava concentrado no trabalho.
Os dias passavam e a tensão entre nós crescia. Era como se estivéssemos num jogo de gato e rato, cada um à espera do outro para fazer o primeiro movimento. Eu sentia meu coração acelerar sempre que nossos olhares se encontravam, mesmo por alguns segundos apenas. Havia algo nele que me atraía irresistivelmente.
Até que chegou aquele dia de chuva forte. O coworking estava quase vazio quando cheguei às oito. A mesa perto da janela estava livre, mas ele já estava lá, com dois cafés na mão. Um para mim, como soube depois.
— Você chegou cedo hoje — falei, surpresa por ter finalmente quebrado o silêncio entre nós.
— Eu estava com sede — respondeu ele, sorrindo de um jeito que fez meu estômago revirar.
Começamos a conversar enquanto a chuva batia forte lá fora. Descobri que ele era escritor, como eu. Que também gostava do silêncio do coworking às oito da manhã. E que tinha notado minha preferência pela mesa perto da janela tanto quanto eu havia notado a dele.
— Acho que hoje é o dia em que finalmente vamos disputar a mesa de verdade — brinquei, tomando um gole do meu café.
— Ou talvez você possa apenas se sentar aqui ao meu lado — sugeriu ele, indicando o lugar vazio ao seu lado na mesa. Havia algo em sua voz baixa e rouca que fez minha pele formigar.
A partir daquele dia, a mesa perto da janela passou a ser nosso lugar. Nos encontrávamos todas as manhãs às oito, compartilhando cafés e conversas sobre literatura e nossas vidas. A tensão entre nós não desapareceu completamente, mas mudou de forma. Tornou-se algo mais quente, mais intenso.
Um dia, enquanto discutíamos um livro que ambos havíamos adorado, percebi que estávamos mais próximos do que nunca. Podia sentir sua respiração em meu pescoço, seu perfume amadeirado invadindo meus sentidos. E então, sem pensar duas vezes, virei-me e o beijei.
Foi como se um fogo tivesse sido aceso dentro de nós. Suas mãos estavam em meu cabelo enquanto as minhas seguravam sua cintura, puxando-o para mais perto. Nossas línguas dançavam uma com a outra, explorando cada centímetro da boca do outro. Foi tão intenso que quase esqueci onde estávamos.
Quando finalmente nos separamos, ambos estávamos ofegantes e sorrindo como dois adolescentes apaixonados. Sabíamos que tínhamos cruzado uma fronteira importante, mas não nos importávamos. Estávamos perdidos demais um no outro para preocupações desse tipo.
A partir daquele dia, as manhãs no coworking passaram a ter um novo significado para nós. Era nosso lugar secreto, onde podíamos ser só nós dois, sem preocupações com o trabalho ou qualquer outra coisa além de nós mesmos. Nos encontrávamos todas as manhãs às oito, compartilhando cafés e beijos roubados enquanto a chuva batia lá fora.
E mesmo quando não estava com ele, sua presença ainda estava presente em mim. Na forma como meu coração acelerava sempre que pensava nele, no jeito como meu corpo ansiava pelo seu toque. Era algo novo e assustador, mas também incrivelmente emocionante.
Mas toda essa tensão acabou tendo um desfecho num dia de chuva especialmente forte. Estávamos sentados à nossa mesa perto da janela quando ele segurou minha mão e disse:
— Quer ir embora daqui? Conheço um lugar onde podemos continuar essa conversa com mais privacidade.
Não precisei perguntar onde era esse lugar. Seu olhar intenso me dizia tudo o que eu precisava saber. Saímos do coworking de mãos dadas, deixando para trás a mesa perto da janela e todas as nossas lembranças ali.
Chegamos ao apartamento dele alguns minutos depois, já nos beijando freneticamente no elevador. Assim que a porta se fechou atrás de nós, começamos a arrancar um ao outro a roupa enquanto nos dirigíamos ao quarto. Era como se não pudéssemos esperar nem mais um segundo para estarmos nus juntos.
Ele me jogou na cama e começou a explorar meu corpo com beijos quentes e carícias suaves. Seu toque era tão delicado que quase dói, mas também tinha algo de urgente nele, como se ele estivesse tentando compensar todos aqueles meses em que tínhamos nos ignorado um ao outro.
Eu correspondia a cada carícia com um gemido baixo e profundo, sentindo meu corpo se retesar sob seu toque experiente. Quando ele finalmente me penetrou, foi como se todas as peças finalmente tivessem se encaixado no lugar certo. Era como se estivéssemos destinados a fazer amor desde o início, mesmo antes de sabermos quem realmente éramos.
Nossas investidas eram lentas e sensuais, cada uma delas projetada para maximizar nosso prazer mútuo. Eu podia sentir seu coração batendo contra meu peito enquanto nossas peles suadas se encostavam uma na outra. Era quase demais para suportar, mas eu não queria que aquele momento jamais acabasse.
Quando finalmente alcançamos o clímax juntos, foi como se um terremoto tivesse nos atingido. Nossos corpos tremeram e se contraíram enquanto gritávamos nossos nomes um para o outro, como se quiséssemos gravá-los em nossas almas para sempre.
Depois ficamos deitados lado a lado, nossas pernas entrelaçadas, ainda ofegantes demais para falarmos qualquer coisa. Mas não precisávamos dizer nada. Tudo tinha sido dito naquele quarto, com nossos corpos falando por nós.
A partir daquele dia, as coisas mudaram entre nós. Não mais só a mesa perto da janela no coworking, mas também o apartamento dele e minha casa. E mesmo quando não estávamos juntos fisicamente, sentíamos uma conexão que nunca havia existido antes. Era como se tivéssemos descoberto algo novo e emocionante sobre nós mesmos através do outro.
E assim, a mesa perto da janela passou a ser muito mais do que apenas uma mesa num coworking qualquer. Tornou-se nosso lugar secreto, onde tudo começou entre nós dois. Um lugar onde sempre haveria cafezinhos compartilhados e olhares intensos, independentemente de quem chegasse primeiro às manhãs seguintes. Afinal, agora éramos nós dois ali naquela mesa, juntos para sempre.
Acordamos juntos no dia seguinte, ainda abraçados em seu quarto escuro. A luz entrava timidamente pela janela, delineando nossas silhuetas sob os lençóis amarrotados. Eu não queria me mover, não queria estragar aquele momento tão perfeito que parecíamos ter encontrado depois de tanto tempo.
Ele foi o primeiro a se mexer, passando suas mãos pelo meu corpo nu com carícias suaves e delicadas. Senti um arrepio percorrer minha pele enquanto seus lábios beijavam meu pescoço e ombro, fazendo-me sorrir com a sensação gostosa que me invadia.
- Bom dia - sussurrei, virando-me para encará-lo.
Seus olhos castanhos brilhavam com uma intensidade que nunca tinha visto antes. Ele sorriu de volta e disse:
- Queria poder parar o tempo agora mesmo. Foi a melhor noite da minha vida.
Eu ri baixinho enquanto passava meus dedos pelos cabelos bagunçados dele.
- Acho que podemos repetir essa performance quantas vezes quisermos - falei, sentindo-me corajosa e livre sob seu olhar cheio de desejo.
Ele riu também, abraçando-me forte contra o peito nu. Ficamos assim por algum tempo, apenas aproveitando a companhia um do outro sem precisar dizer nada além das palavras já ditas na noite anterior.
Mas logo percebemos que não podíamos nos esconder ali para sempre. Tínhamos vidas fora daquele quarto e compromissos que não podiam esperar mais. Com um suspiro relutante, saímos da cama e começamos a nos vestir, ainda lançando olhares cheios de significado um para o outro.
- Quer tomar café comigo hoje? - perguntei enquanto calçava meus sapatos.
Ele sorriu daquele jeito que fazia meu coração disparar e disse:
- Eu adoraria. Mas primeiro preciso passar em casa para me trocar. Posso buscá-la às nove?
Concordei com um aceno de cabeça, sentindo-me animada com a perspectiva de começarmos nosso dia juntos depois de uma noite tão intensa.
Quando chegamos ao coworking alguns minutos antes das nove, percebemos que já havia alguém sentado à mesa perto da janela. Uma onda de ciúmes me invadiu enquanto eu via um homem desconhecido ocupando nosso lugar especial. Mas logo ele se virou para nós e sorriu:
- Desculpem, espero não estar atrapalhando nada - disse o rapaz com sotaque francês. - Sou novo aqui no coworking e achei essa mesa tão gostosa que não resisti.
Nós nos apresentamos enquanto eu sentia meu ciúme se dissipando gradualmente. Afinal, não tínhamos direitos sobre aquela mesa ou sobre qualquer outro lugar naquele espaço compartilhado. Mas mesmo assim, não pude deixar de sentir uma pontada de tristeza ao perceber que agora teríamos que dividir nosso cantinho preferido com mais alguém.
Mas então olhei para ele e vi o quanto estava feliz só por estar ali comigo novamente, ainda que em circunstâncias diferentes das nossas expectativas. E naquele momento percebi que não importava onde estivéssemos sentados ou quem mais estivesse presente - enquanto estivéssemos juntos, tudo ficaria bem.
Então sorri de volta para o francês e disse:
- Não se preocupe, você não está atrapalhando nada. Afinal, agora somos três pessoas compartilhando essa mesa tão gostosa. E isso só pode significar uma coisa: mais cafezinhos compartilhados e conversas interessantes entre nós.
Ele riu enquanto eu começava a organizar minhas coisas sobre a mesa, sentindo-me grata pelo novo rumo que nossas vidas estavam tomando. Afinal, não é sempre que se tem a oportunidade de encontrar alguém especial em um lugar tão comum quanto um coworking qualquer. E agora, com a chegada do rapaz francês, nossa história só iria ficar ainda mais interessante - assim como o sabor dos cafezinhos que tomaríamos juntos dali para frente.
E foi assim que começou uma nova fase na vida dela, repleta de encontros secretos no trabalho e descobertas emocionantes sobre si mesma através do outro. A mesa perto da janela continuou sendo muito mais do que apenas uma mesa num coworking qualquer - tornou-se um símbolo vivo do amor e desejo que havia nascido ali entre eles dois. Um lugar onde sempre haveria cafezinhos compartilhados, olhares intensos e momentos inesquecíveis, independentemente de quem mais estivesse presente. Afinal, agora eram três pessoas dividindo aquele espaço tão gostoso, e cada uma delas trazia sua própria história para serem compartilhadas ao redor da mesa perto da janela.